Quando o desejo sabe a mar, de Carlos Enes,
ou a navegação dos corpos
“E quando o desejo sabe a mar, a onda ultrapassa o infinito.” (pág. 200).
Acabo de ler um romance impregnado de erotismo e que mergulha fundo no imaginário terceirense: Quando o desejo sabe a mar (Letras Lavadas edições, 2025), de Carlos Enes, o historiador que na literatura encontrou a sua estrada para Damasco…
Natural da Vila Nova, ilha Terceira, e herdeiro assumido da tradição oral, este autor, que já havia dado boa conta de si na ficção narrativa com Terra do Bravo (Instituto Açoriano de Cultura, 2005), reincide agora com Quando o desejo sabe a mar, sendo notório um salto qualitativo deste em relação àquele livro.
Escrito em bom vernáculo e com fluidez narrativa, a ação do romance decorre precisamente na ilha Terceira, no decorrer dos anos 60 e 70 do século passado, e começa por traçar um muito bem conseguido retrato da época, ou seja, um tempo marcado por um profundo mal-estar português: o subdesenvolvimento, a pobreza, a intolerância, a guerra colonial, a Pide e todas as chagas sociais, políticas e culturais deixadas pelo Estado Novo.
Com um título expressivo e plurissignificativo, Quando o desejo sabe a mar tem tanto de apreensão de um mundo real como de construção de um mundo fictício. No fechamento e circularidade da ilha, a trama do livro tem, como leitmotiv, duas relações apaixonadas e clandestinas em que o desejo antecede o amor... A primeira acontece entre Ricardo, um jovem de 18 anos, e Maria do Nascimento, beirã, empregada doméstica “a rolar pela casa dos trinta” (pág. 20). Partilhando secretas cumplicidades e eróticas intimidades, ambos se entregam ao desejo inadiável…
Ricardo tipifica – e bem – a adolescência, tempo de descoberta e de aprendizagem e onde habitam as primeiras emoções e sensações, os ritos iniciáticos, o despertar para o mundo e para o conhecimento das coisas. Órfão de mãe, é arrancado da sua freguesia rural e vem estudar para o liceu de Angra, ficando instalado em casa dos padrinhos: Augusto, que andou pelas Américas e é homem de negócios bem sucedido, e Beatriz, cerca de 30 anos mais nova do que o marido, mulher bela, atraente e sensual que, em busca de ascensão social, vive de luxos e mordomias.
E porque “não se faz boa literatura com bons sentimentos” (André Gide dixit), a segunda relação é ainda mais escaldante, pois implica adultério com contornos de um crime de padre Amaro, à boa maneira queirosiana. Aproveitando as sucessivas ausências do marido em viagens de negócios, Beatriz e o padre Maurício cedem aos apelos da carne – na pulsão do desejo, na vertigem do prazer, na navegação dos corpos e na explosão dos sexos… Para os amantes pecaminosos as consequências das suas ações serão muitas, a começar por um pesadíssimo sentimento de culpa… De resto, Beatriz é reincidente, pois, anos antes já havia atraiçoado Augusto quando, num hotel de Lisboa, seduziu e se deixou seduzir por um joalheiro…
Está dado o mote e obviamente não contarei o que se segue, pois é ao leitor que cabe fazê-lo. Apenas direi que Carlos Enes sabe modelar as suas personagens, dando-lhes consistência e fundura psicológica. Por exemplo: D. Glória das Mercês de Albuquerque e Távora, senhora de duvidosa nobreza, paroquiana dada a chás, licores e canasta. E gostei particularmente de uma figura deveras cénica: Ulisses Parménio, “autointitulado poeta-filósofo” (pág.93), excêntrico, dotado de espírito crítico, especulativo e dialético, com observações judicativas e um discurso quase filosófico.
Não há literatura sem geografia. Por isso o autor capta, a partir do microcosmo de Angra do Heroísmo, aspetos da realidade humana, geográfica, social, cultural e política da ilha Terceira. Campo versus cidade. Ruralidade versus urbanismo. Burguesia versus povo. O luxo do Lawn Tennis Club ou a limpeza do Clube dos Oficiais Americano, em nítido contrataste com os bairros pobres das periferias de Angra do Heroísmo e da Praia da Vitória. Ou seja, um “espírito do lugar”.
Com efeito, as 254 páginas de Quando o desejo sabe a mar percorrem tradições, usos e costumes, ciclos e ritos de vida do povo terceirense, tido por festivo e festeiro, dividido entre o religioso (o Divino Espírito Santo) e o profano (as folgas), num tempo em que todos os caminhos iam dar ao Pátio da Alfândega, porta de entrada e saída de Angra, cidade imersa no seu plácido sono histórico do “aqui já só foi Portugal” e politicamente dominada por situacionistas.
Belíssimo é o retrato que nos é dado de Angra, a cidade dos cheiros das mercearias e dos odores das pastelarias; da Rua da Sé, do Teatro Angrense, da Recreio dos Artistas, da Fanfarra Operária; dos engraxadores da Praça Velha, dos passeios no Jardim Público e das compras na Praça do Mercado; dos bailes do Clube Musical Angrense; dos boatos no Atanásio e dos mexericos no canto da Caixa; das tardes de domingo de futebol entre o Lusitânia e o Angrense; das tertúlias de clubes e cafés, onde jovens insubmissos e contestatários (e Carlos Enes foi um deles) partilhavam opiniões irreverentes…
À cidade de Angra iam chegando os ecos da crise académica universitária de 1962 e o Maio de 68, em França, bem como as ideias arejadas do Concílio vaticano II (“a aurora dos novos tempos”, como então se dizia), de cujo aggiornamento foram defensores alguns professores do Seminário, tendo daí resultado ventos de mudança a nível cultural.
Fizeram-se então ouvir alguns movimentos progressistas da Igreja. Sucederam-se as edições de livros de jovens poetas emergentes. Houve cinema e teatro na sua expressão moderna. E gente corajosa a dizer coisas corajosas aos microfones do Rádio Clube de Angra. E existiu a cooperativa cultural Sextante e a Galeria Gávea. E as reuniões subversivas em casa de um advogado sindicalista... E, acima de tudo, havia uma imensa “vontade de revirar o mundo” (pág. 197), não fosse a literatura uma procura do sentido da vida e uma interrogação do homem no mundo.
Neste ambiente que se lhe oferece em espetáculo, Ricardo já não quer tirar o curso de engenharia (em vez disso, cuida dos bens do padrinho Augusto, de quem será herdeiro), torna-se rebelde, sonha com uma sociedade mais justa e quer mudanças radicais. Pouco tempo depois, a sorte veio ter com ele: acontece a revolução do 25 de Abril de 1974 e nada em Portugal viria a ser como dantes. Quando o desejo sabe a mar dá conta disso mesmo: a instauração da democracia e as mudanças ocorridas no país; os entusiásticos anseios dos movimentos do MFA e do PREC; a exaltação revolucionária e os conturbados tempos de uma deriva ultraesquerdista; o fim da guerra e o fim de um ciclo colonial; a inquietação populista do Verão Quente de 75 e, nos Açores, as emboscadas e a ação terrorista do movimento independentista da FLA.
Quando o desejo sabe a mar é um romance com grande poder evocativo, eficácia descritiva, capacidade narrativa e indiscutível qualidade literária. Saudemos a humaníssima voz de Carlos Enes, escritor em trânsito por várias linguagens que, escrevendo da Rua do Galo para o Mundo, continua a engrandecer e a dar luzimento à nossa literatura, por mais que ele diga que só é historiador.
Santa Cruz da Graciosa, 12/11/2025
Victor Rui Dores

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