OPINIÃO: VICTOR RUI DORES | O graciosense que foi professor de Teófilo Braga

 



O graciosense que foi professor de Teófilo Braga



              Chamava-se João Hermeto Coelho de Amarante (1820-1893) e foi professor, poeta e jornalista.

Nascido na Graciosa, filho de Cândido José Coelho, alferes de ordenanças e administrador do concelho de Santa Cruz, emigrou, muito jovem para o Brasil. Em terras de Vera Cruz dedicou-se ao comércio, à correspondência comercial e ao estudo das línguas francesa e inglesa.

Regressado aos Açores, foi provido num dos ofícios de tabelião da ilha Graciosa, cargo que apenas exerceu entre 1847 e 1848. Transferiu-se para Angra do Heroísmo, onde foi nomeado recebedor da Alfândega, entre 1850 e 1853, ano em que foi colocado como professor provisório da língua francesa no Liceu da Horta.

Mais tarde transferiu-se para a ilha de São Miguel, onde a partir de 1858 também lecionou como professor provisório de francês no Liceu de Ponta Delgada. Ali, foi professor do jovem Teófilo Braga (1843-1924). Mais tarde, o futuro Chefe do Governo Provisório e Presidente da República haveria de, no opúsculo Homenagem (1922), recordar uma azeda troca de palavras provocada pela desconfiança que Hermeto manifestara aos projetos da vocação literária do aluno. Seguro das suas convicções e atitudes, Teófilo dissera que queria, no futuro, ser doutor e, face ao ceticismo que os reparos do graciosense teriam manifestado quanto à viabilidade de tal propósito (“Não vejo moita de onde saia coelho”), Teófilo ripostou de imediato: “É porque o senhor professor não tem faro…”.

Aposentado, João Hermeto Coelho de Amarante acabaria por se fixar em Angra do Heroísmo, onde se dedicou ao jornalismo e à escrita, vivendo em situação de grande precaridade. Depressivo, acabou por se suicidar lançando-se ao mar numa viagem da ilha Terceira para a ilha Graciosa quando a embarcação em que seguia navegava fora do Monte Brasil. O corpo foi recolhido no Porto de Negrito, São Mateus da Calheta, a 12 de agosto de 1893.



Poeta pouco inspirado, dedicou-se sobretudo à poesia laudatória. Foi diretor do “Grémio Literário Fayalense” e, para além de múltiplas colaborações em poesia e prosa (nos jornais da Horta e Ponta Delgada) e em folhas volantes, foi autor das seguintes monografias: Roma perante o século XIX (Lisboa, 1869), ensaio sobre matéria religiosa e política, e, em volume de 450 páginas, Páginas de prosa e verso, dedicadas aos verdadeiros progressistas de Portugal e Brasil (Ponta Delgada, Empresa Tipográfica dos Açores, 1878).

Erudito e apreciável orador, foi sócio correspondente da Sociedade de Geografia de Lisboa e da “Académie Indo-Chinoise de Paris”.

Gervásio Lima dedicou-lhe uma página do seu Breviário Açoriano (Tip. Editora Andrade,1934). A sua genealogia vem descrita no vol. III de Genealogias da Ilha Terceira (Dislivro Histórica, Lisboa, 2007-2011), de António Maria Mendes e Jorge Forjaz.



Victor Rui Dores










Comentários