OPINIÃO: VICTOR RUI DORES | Em louvor do burro

 



Em louvor do burro

         

       Escrevo hoje, com compassiva simpatia, sobre o burro – esse dócil animal, cuja fama remonta à Antiguidade, vem citado no Novo Testamento e é presença constante nas fábulas. Infelizmente quase sempre sujeito a interpretações insidiosas...

De resto, como graciosense, estou habituado a que me atirem à cara a conhecida alcunha etnográfica: Graciosa, terra de burros…

Diz-se que, em tempos pretéritos, a Graciosa chegou a ser a ilha com maior percentagem de burros em relação à população. Em 1962, no seu livro Sinais de Oeste, Pedro da Silveira, exagerando no número de asininos, escreveu:

Na Graciosa (di-lo a gente das outras ilhas) há 15.000 burros. E sempre que chega o vapor de carreira (o “Lima” ou o “Carvalho Araújo”), os burros entoam um hino de boas-vindas. (É uma visita de Lisboa e Lisboa merece esta delicadeza)”.

Para ricos e pobres, o burro, ajoujado a um modo de vida duro, foi, durante muito tempo, indispensável pelos bons serviços que prestava, sobretudo a nível dos trabalhos agrícolas. E com uma vantagem em relação a outras cavalgaduras: mais leve, mais manso e mais resignado, ele era capaz de, bem albardado, pisar terrenos ásperos e de difícil acesso.

Com efeito, o burro era um meio de condução trivial para pessoas de todas as castas sociais. Nas suas habitações, todos tinham a sua “casa da burra”. As famílias graciosenses mais abonadas dispunham sempre um burrinho para os seus meninos. Cheguei a conhecer um solar em cujo portão havia um poial ou banqueta de pedra, aonde as senhoras subiam para mais facilmente se assentarem numa cadeirinha, a que se dava o nome de andilhas (1).

Durante largos anos, e a partir da Praia da Graciosa, o burro, servidor obediente, foi um meio de transporte privilegiado para os passageiros (em trânsito) de visita à “Furna do Enxofre da Caldeira” (cf. imagens). Em grande número, as alimárias, tangidas por jovens (“Tá burr´i quedo!”), aguardavam no cais esses forasteiros (na altura não se dizia turistas). Para estes, os jumentos eram apreciados por caminharem regularmente e sem movimentos bruscos.

E é já do meu tempo as alegres burricadas, acompanhadas de muita cavaqueira e seguidas de abundantes piqueniques. Aliás, numa tradição que não é exclusiva da Graciosa. Há registos, do século XIX, que dão conta de bem animadas burricadas nas ilhas de São Miguel (subida às Sete Cidades) e Faial (subida à Caldeira). 










O tempo foi passando e, com o advento das novas tecnologias, o burro deixou de ser relevante. Resta-nos hoje o burro anão da Graciosa, raça autóctone desde julho de 2025: de pequena estatura e com características fenotípicas muito peculiares e próprias – precisamente por se ter adaptado às características da ilha.

Por conseguinte, venho reivindicar mais respeito pelo burro, esse nobre animal: porque está em vias de extinção, porque tem tino, é dócil e sensível e, já agora, porque foi o meio de transporte utilizado por José e Maria na sua fuga para o Egito…



Victor Rui Dores



  1. Armação de madeira colocada na albarda do burro para amparar quem montava sentado.















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