Do desconhecimento sobre os Açores
Fico sempre de semblante carregado e sobrolho franzido quando gente continental teima em achar que eu não tenho “pronúncia açoriana” só porque da minha boca não sai a fonética micaelense…
Desde os meus tempos de estudante universitário em Lisboa que tento explicar aos “meus quase patrícios” (expressão de Antero de Quental) estes pressupostos: os povoadores, vindos do norte, do centro e do sul de Portugal, ao fixarem-se em diferentes ilhas, deram origem a diferentes sotaques; as pronúncias dos Açores variam não só de ilha para ilha, como também, dentro de cada ilha, de freguesia para freguesia e de lugar para lugar.
Daí a diversidade de variantes dialetais, sendo que em todas as ilhas açorianas há um traço comum: a preservação da estrutura arcaica. E isto porque, dado o seu isolamento físico, os Açores constituíram, ao longo de seis séculos, território (ultra)periférico relativamente ao continente português, à Europa e às Américas. Este fechamento das ilhas foram fatores determinantes no sentido de, neste arquipélago, se armazenar e manter a expressão portuguesa mais pura, mais autêntica e mais genuína.
Só que vou gastando o meu latim para nada… E há continentais que, não acreditando no que digo, continuam a insistir:
- Vá lá, deixa-te de coisas, e fala com a pronúncia dos Açores.
- Mas eu não sou da ilha de São Miguel – respondo, com vontade de dar chapadas.
Com efeito, é grande o desconhecimento (a roçar a ignorância) que ainda existe, em diversos domínios, sobre o que se passa no arquipélago dos Açores, constituído por 9 ilhas, 19 concelhos, 155 freguesias.
E, neste aspeto, se evolução tem havido, ela tem sido muito lenta. Nos idos anos 60 do século passado ficou famoso um episódio, ocorrido na Terceira da minha adolescência, com um funcionário público angrense. Este, impedido de ir prestar serviço à ilha Graciosa por falta de vapor, recebe de Lisboa, de um alto funcionário do Terreiro do Paço, um telegrama com a seguinte ordem: “Siga para a Graciosa com urgência a pé”…
Uma década depois, quando eu era estudante universitário na Faculdade de Letras de Lisboa, uma colega minha de Cascais ficou muito admirada por eu ser açoriano e não ser preto…
Nos tempos que correm, e com tanta tecnologia à solta, a verdade é que a comunicação social “lá de fora” só fala dos Açores pelos piores motivos: sismos, tempestades e outras desgraças…
Cem anos após a publicação do livro As Ilhas Desconhecidas, de Raul Brandão, as ilhas açorianas deixaram de ser esquecidas, mas lamentavelmente não deixaram ainda de ser desconhecidas…
Victor Rui Dores


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