OPINIÃO: VICTOR RUI DORES | Manuel de Arriaga (d)escrito por Eça de Queiroz

 







Manuel de Arriaga (d)escrito por Eça de Queiroz



Oriundo da aristocracia faialense, Manuel de Arriaga nasceu na Horta no dia 8 de julho de 1840. A sua vida foi de luta intensa, quer durante os últimos decénios da Monarquia Constitucional, quer no decorrer dos primeiros tempos da República. Desde muito cedo defensor do ideário republicano, exerceu os cargos de professor, advogado, deputado, procurador-geral da República, reitor da Universidade de Coimbra e, com 71 anos de idade, foi eleito o primeiro presidente constitucional da República Portuguesa, no dia 24 de agosto de 1911.

Presidiu ao país num período muito conturbado, e sentiu muitas dificuldades em conciliar partidos e ideais opostos. Basta dizer que, durante o seu mandato, de 1911 a 1915, empossou oito governos. Depois, em 1914, com o início a Primeira Guerra Mundial, os políticos dividiram-se quanto à entrada de Portugal no conflito armado. Para grande tristeza lusa, entrámos nessa guerra para sermos “carne para canhão” ...


No dia 26 de maio de 1915 Manuel de Arriaga resignou ao cargo de Presidente da República. Por razões diversas: os partidos não se entendiam, havia muita agitação social nas ruas, muita instabilidade, muita violência... E ele estava consciente da sua falta de poderes para impor soluções adequadas, o que o deixou verdadeiramente descontente e desgostoso. Na sequência de gravíssimos incidentes militares, e para acalmar o exército, chamou ao governo o general Pimenta de Castro, e esse foi o seu erro mais clamoroso. Pimenta de Castro impôs ao país uma ditadura, tendo como primeiras medidas encerrar o Parlamento e amnistiar Paiva Couceiro e outros monárquicos. Não restou a Arriaga outra solução senão resignar. E saiu da presidência sem honra nem glória. Contristado e doente, viria a falecer no dia 5 de março de 1917.

Os seus conterrâneos referiram-se-lhe utilizando adjetivos tais como: “altruísta”, “pacificador”, “magnânimo”, “bondoso”, “honrado”, “idealista”, romântico”, “virtuoso”, etc. Para Eça de Queiroz, Manuel de Arriaga foi “o santo da Democracia”. Exceto Teófilo Braga (por via do seu mau feitio), todos o veneravam: Antero de Quental, António José de Almeida, Elias Garcia, Magalhães Lima, Latino Coelho, Jacinto Nunes…


Um destes dias deu-me para reler Farpas – uma Campanha Alegre, da autoria de Eça de Queiroz. O autor de “Os Maias” dá-nos um retrato muito interessante de Arriaga, numa altura em que este exercia funções de deputado, e estava na ordem do dia a discussão de uma proposta relativa ao ensino secundário. Corria o ano de 1871, e Arriaga contava então 31 anos de idade. Cito:


Toma a palavra o deputado republicano Manuel de Arriaga. Fisionomia ingénua e generosa. Porte cavalheiresco, cabeleira loira, fina, solta, descobrindo a testa, arrojada para trás, como por um golpe de vento em cima de uma barricada. Olhos azuis e luminosos. Voz quente, comovida e entusiástica. Presentemente advogado nos auditórios de Lisboa, o sr. Manuel de Arriaga foi por muitos anos professor público da instrução secundária.

Este orador entende que a lei em projeto não satisfaz as reclamações da opinião pública. A reforma de que se precisa, deveria abranger não só a instrução secundária, mas toda a instrução do país.”


Ao longo de 43 anos de ensino, vesti, por várias vezes e sempre com propósitos cénicos e didáticos, a pele de Manuel de Arriaga. Baseei-me sempre na sua iconografia em que ele nos surge sempre a preto e branco. Só soube que o patrono da minha Escola era loiro e tinha olhos azuis através da pena magistral de Eça.

A tal circunstância não é alheia o facto de, no seu nome, Manuel José de Arriaga Brum da Silveira e Perylongue, constarem apelidos de origem estrangeira.

Assim, Manuel José (nomes bem portugueses) de Arriaga (de origem basca) Brum da Silveira (de origem flamenga) e Perylongue (de origem francesa).

Mas isso é de somenos importância. Fulcral é o legado que ele nos deixou: a defesa intransigente da liberdade e da democracia e uma ideia de futuro para a Europa.


Victor Rui Dores














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