Rui Duarte Rodrigues
ou a poética do amargo desencanto
Acabo de ler, com emoção e comoção, o livro Meu poema é isto (Instituto Açoriano de Cultura, 2025), poesia reunida do poeta terceirense Rui Duarte Rodrigues (1951-2004), com coordenação de Luiz Fagundes Duarte.
O Rui Rodrigues está na minha memória e na minha saudade.
Corria o mês de Outubro de 1972 e “chovia carroças” em Angra do Heroísmo quando, “apadrinhado” por ele, bebi a minha primeira cerveja, sentado a uma mesa do café “Portugália”. A chuva era tanta que a empinada Rua do Galo parecia uma ribeira…
Porque na altura eu vivia na Rua de Santo Espírito, o café “Portugália” passou a ser a minha babilónia de ideias novas, irreverentes, iconoclastas. Ali escutava as conversas do Rui Rodrigues, do José Manuel Macide e de outros “intelectuais” que, sentados à mesa da cumplicidade, do cervejame e do amendoim, diziam coisas estranhas, impensadas e verdadeiras.
Com abundantes espirais de fumo, ali se conspirava em tertúlias vadias. Ali se endireitava o mundo e se (re)inventava a utopia em inacabadas conversas. Embriagados de vida, eles eram homens livres e generosos, solidários e solitários, verdadeiros e autênticos, situados e sitiados, isolados, incompreendidos. Atentos observadores do real, dotados de uma luminosa inteligência e senhores de uma refinada ironia, eles representavam, para mim, aquilo a que eu entendia ser o espírito moderno.
Revisito esse tempo e estou a vê-los e a ouvi-los no “Portugália”, ante o olhar atento do senhor Adelino, proprietário do café.
O Rui, discreto, sereno e tímido, acompanhava o que dizia com largos gestos das mãos e, quando calado, tinha aquele seu jeito muito peculiar e pensativo de cofiar o bigode. Quase sempre fazia parelha com o Macide, moreno e barbudo, cabelo desgrenhado e olhar penetrante, queimando cigarro atrás de cigarro... Eram ambos jornalistas, cultos e informados, que escreviam a inquietação daquela época. Militavam os dois nas escritas e pertenciam às esquerdas líquidas... O Macide, cronista das pequenas coisas do quotidiano; o Rui, poeta disperso e fugaz.
Eu escutava-os com enlevos de aluno aplicado. Eles acolhiam-me à sua mesa e tratavam-me como se eu fosse da idade deles, num convívio quase diário de excelente camaradagem. Acompanhei, na “Portugália”, a concepção e a realização de alguns poemas do Rui, bem como de algumas das crónicas do Macide, num tempo em que Angra, imersa no seu plácido sono histórico, era uma cidade tradicionalista e conservadora. E o 25 de Abril ainda estava por acontecer.
Vinte e dois anos após a sua morte, releio os poemas que Rui Duarte Rodrigues deixou nos dois livros publicados em vida, poemas que, agora reunidos, conhecem uma outra consistência, uma outra unidade e um novo fôlego: Os meninos morrem dentro dos homens (1970, tinha ele 18 anos de idade) e Com segredos e silêncios (1994), a que Luiz Fagundes Duarte acrescenta, na presente edição, alguns poemas dispersos e inéditos, e ainda textos em prosa deste angrense que nos deixou cedo de mais.
A poesia de Rui Duarte Rodrigues continua a despertar em mim um sentimento de encanto, ele que sempre foi poeta do amor. Trata-se de uma poesia intimista (com muita chuva à mistura) que capta sensações, fixa emoções, vagueia por sentimentos e estados de alma, navegando sonhos e memórias – em versos de uma grande musicalidade, plenos de transparência e plenitude. Mas também cheios de desencanto com o desconcerto do mundo (a guerra, por exemplo), digo, a desilusão inquietante do poeta com a vida naquilo que esta tem de mais efémero. O que talvez bastasse para provar, se necessário fosse, que estamos perante uma das vozes mais significativas no âmbito da nossa melhor poesia.
Meu poema é isto aí fica, a merecer a nossa melhor atenção. Porque, nem vistas as coisas, os poetas só morrem se os deixarmos de ler
Horta, 24/06/2026
Victor Rui Dores


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