OPINIÃO: VICTOR RUI DORES | Lembrando o sr. Belchior Cordeiro e o filme da minha vida



 

Lembrando o sr. Belchior Cordeiro e o filme da minha vida



  Escrito e realizado por Giuseppe Tornatore, Cinema Paraíso (1988) é o filme da minha vida porque nele eu sou protagonista.

  Explico-me: a ação do filme desenrola-se numa aldeia italiana dos anos 50 do século passado, e conta a história de um miúdo, Toto, que vive fascinado pelo cinema, mantendo uma relação de grande amizade com Alfredo (magnificamente interpretado por Philippe Noiret), o projeccionista de uma casa de espectáculos chamada Cinema Paradiso.

  Acreditem: aquele miúdo sou eu! Tal como Toto, também eu fui uma criança bisonha para quem o cinema era o fascínio e o sortilégio que me restavam. E foi através da 7ª arte que, a viver nos estreitos limites da ilha Graciosa e sem acesso à televisão, também eu despertei para o conhecimento das coisas, da vida e do mundo.




  O cinema era, então, uma experiência de sonho, uma entrada no reino da fantasia, que não residia apenas nas histórias que via no écran, mas nos próprios instrumentos que davam vida às imagens. E quem me ajudou a cimentar esse amor pelas fitas foi o sr. Belchior Cordeiro, projecionista da velha casa de espectáculos da vila da minha infância. Ele era exactamente o Alfredo do filme, pois com ele estabeleci a mesma cumplicidade e a mesma estima profunda e recíproca. Eu faltava à escola só para o ver, na sua oficina, enredado em fitas e bobines, a rebobinar o filme que havia passado na noite anterior. De vez em quando a fita rebentava e era preciso cortar e depois colar os fotogramas. Eu guardava, religiosamente, os que caíam no chão, coleccionando-os numa caixinha de supositórios da minha avó.

  Homem generoso, o sr. Belchior, em noites de cinema, deixava-me entrar na cabine de projecção. Aquele era um espaço sagrado, onde se destacava a valiosíssima máquina de projectar, cujas entranhas causavam em mim um profundo espanto. Tal como Alfredo, o sr. Belchior, com gestos meticulosos, fazia deslizar a fita por labirintos de prismas, espelhos, lentes, obturadores, diafragmas, rodas e rodinhas… Depois fechava a portinhola e ouvia-se o trac-trac do movimento circular da fita. Apagavam-se as luzes, rompia um sururu na sala. Com truques de mágico, ele caprichava na focagem. E aquele tremelicante feixe de luz que saía da lente exercia em mim um imenso fascínio. Era então que eu subia para um banco para chegar ao postigo e, deslumbrado – tal e qual Toto – regalava-me com os murros do John Whayne, os tiros do Humphrey Bogart, os sorrisos de Clark Gable, os músculos de Charlton Heston, os olhos de Kim Novak, os beijos de Ingrid Bergman…

  E foi assim, empoleirado numa cabine de projecção, que aprendi a descobrir e a inventar o mundo. Um dia percebi que, afinal, a vida não era como o cinema. Nesse dia chorei perdidamente, mas em mim nunca mais se perdeu o encanto do celulóide.


Victor Rui Dores











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