OPINIÃO: VICTOR RUI DORES | Por Quem os Sinos Dobram

 


Por Quem os Sinos Dobram

ou a memória de ver matar e morrer



Durante a “silly season”, reli um clássico.

Publicado em 1940, o romance Por Quem os Sinos Dobram (do inglês For Whom the Bell Tolls), de Ernest Hemingway (1899-1961), tem como referencial e pano de fundo a Guerra Civil de Espanha (1936-1939) – conflito que opôs republicanos e fascistas, e por muitos considerado como uma espécie de prelúdio para a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

O título da obra é referência ao verso de um poema do escritor inglês John Donne (1572-1631): “E por isso não perguntas por quem os sinos dobram: eles dobram por ti”.

Jornalista por profissão e escritor por vocação, Hemingway viajou, em 1937, para Madrid, com o intuito de ali realizar algumas reportagens sobre a resistência do governo legítimo de Espanha aos avanços dos revoltosos fascistas, liderados por Franco. Acabou por se juntar aos republicanos, participando, como voluntário, no referido conflito armado, cuja vivência o marcou profundamente e está na génese de Por Quem os Sinos Dobram, sem dúvida um dos mais belos romances de guerra do século XX. Aliás Hemingway já havia participado, também como voluntário, na Primeira Guerra Mundial na qualidade de condutor de ambulâncias da Cruz Vermelha, tendo sido ferido por um morteiro na cidade italiana de Schio. Dessa experiência, e da relação que então manteve com a enfermeira Agnes von Kurowski, haveria de resultar o romance O Adeus às Armas, publicado em 1929.

   Três dias constituem o tempo de ação de Por Quem os Sinos Dobram´, cujo protagonista é o jovem norte-americano Robert Jordan, que se junta às fileiras republicanas por afinidades ideológicas e idealistas e passa a lutar, ao lado de um grupo bastante diversificado de guerrilheiros, na Espanha dividida entre as duas frentes em combate. Robert Jordan é contratado para uma missão de altíssimo risco: fazer explodir uma ponte e inviabilizar a utilização desta pelos fascistas. Dispostos algures numa zona montanhosa e abrigados em grutas, os partizans constituem uma unidade guerrilheira formada por revolucionários experientes, ex-líderes, ciganos, ladrões, assassinos e sobreviventes da guerra. Os dias que se sucedem antes da ação são preenchidos com memórias, reflexões, conversas, sonhos, conflitos, culpas, desentendimentos... Trata-se de uma viagem reflexiva que mostra os dois lados da guerra: o daqueles que matam e o daqueles que morrem. E como não existem inocentes numa guerra, ambos os lados estão sempre presentes em cada pessoa que participa deste cenário. São as contradições da guerra (- Qué mierda es la guerra – exclamou Agustin, pág. 492), que remetem este livro para a condição humana, pois aqui se fala de coragem e lealdade, de amor e derrota, de violência e perdão, de vida e morte.

Robert Jordan, aos poucos, vai conhecendo melhor o perfil de cada um dos seus companheiros, sobretudo Anselmo, velho guia; Pablo, chefe dos guerrilheiros; Pilar, mulher de Pablo e líder das forças da resistência civil, personagem de grande riqueza humana e fundo recorte psicológico; e a jovem Maria, cuja beleza o encanta desde o primeiro encontro, culminando numa paixão arrebatadora…

Neste como noutros romances de Hemingway (que viria a ganhar o Prémio Nobel da Literatura em 1954) temos uma prosa que é de uma limpidez estilística singular: fluência narrativa, realismo nas descrições, proliferação de diálogos, uma escrita muito poderosa e cinematográfica.

Rico em espessura evocativa, Por Quem os Sinos Dobram é um livro de apetecível leitura que desperta em nós uma imediata adesão afectiva. Por isso aqui o recomendo vivamente.



Victor Rui Dores











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