“Um frade a comandar navios!...”
“Ainda o fantástico 5º Centenário do Descobrimento dos Açores” é o título de um interessantíssimo artigo que o historiador e genealogista António Ferreira de Serpa (1865-1939) escreveu em 1926 para os jornais, aquando da celebração do referido centenário.
Polemizando, e num claro desafio ao conhecimento vigente, considerava este autor faialense um “absurdo colossal” a ideia de ter sido Frei Gonçalo Velho a descobrir os Açores em 1432, porque este não podia comandar navios dada a sua condição de frade. Mais escreve que os frades das Ordens de Cristo e de Avis, à época, poderiam ter o governo de fortalezas e a posse de donatarias, mas nunca o comando de navios, porque isso seria “infringir os votos professos”.
Ainda segundo António Ferreira de Serpa, “sem documentos não se faz História, e a verdade é que não há nenhum documento que prove que Frei Gonçalo Velho tenha sido nauta nem descobridor de terras”. Deste modo, “não havendo documento que diga quem foi o descobridor ou reconhecedor dos Açores, continua a lavrar-se no engano de se considerar Frei Gonçalo Velho como tal, visto ser o que a tradição secular fixa”. E, depois de considerar João Vicente (já referenciado por Gaspar Frutuoso em Saudade da Terra) como possível piloto que aportou à ilha de Santa Maria, remata, ironicamente, com o título deste meu escrito.
Quase um século depois, e ainda por ausência de documentos, não está ainda definitivamente esclarecido a data precisa do (re)descobrimento dos Açores. Todavia o historiador Damião Peres, em resultado de uma análise atenta da discutida inscrição da Carta de Gabriel de Valsequa de 1439, aponta Diogo de Silves, piloto de el-rei de Portugal, como o descobridor do arquipélago em 1427. Pela carta régia de 2 de Julho de 1439, verifica-se que até à data eram já conhecidas sete das nove ilhas açorianas. De facto, somente em 1452 as ilhas Flores e Corvo seriam achadas por Diogo de Teive.
Nos tempos que correm 1432 deixou de ser “oficialmente” o ano de achamento dos Açores, e passou a ser 1427, ano a partir do qual vieram gentes de diversos pontos de Portugal e, com menor expressão, de vários países da Europa. As esperanças numa vida melhor e diferente originaram essa aventura de povoar um grupo de ilhas.
Diz-se, com ironia, que o açoriano resulta do tal português povoador que passou tão mal de viagem que não teve coragem de voltar para trás…
O que é indiscutível é que esse primeiro povoador é um outro Robison Crusuoe, ou seja, é um outro náufrago que vai lutar pela sua sobrevivência e pela sus subsistência. É um homem despojado que tem de refazer a sua vida a partir do nada.
Não nos esqueçamos que o início do povoamento das ilhas açorianas foi extraordinariamente penoso e difícil. Quando cá chegaram, os primeiros povoadores apenas encontraram mato cerrado e milhafres, em rigor, águias de asa redonda (o açor nunca terá existido nos Açores…). Foi preciso fazer queimadas, desbravar o solo, ensaiar as primeiras culturas, garantir as subsistências. Foi também necessário reagir às tempestades, às intempéries ciclónicas, aos sismos e a muitos outros perigos.
É, por conseguinte, este povoador (e não colonizador: nos Açores houve um fenómeno de povoamento e não de colonização, pela simples razão de que não havia cá ninguém para ser colonizado) que, fortemente marcado pela Geografia, dará origem ao açoriano. A nemesiana “açorianidade” passa por aqui.
Não sendo eu historiador, alinho pelo diapasão de António Ferreira de Serpa. Um frade a comandar navios é coisa que, à luz da moderna historiografia, não cabe na cabeça de ninguém.
Victor Rui Dores


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