ao João Carlos Pamplona
Os Pamplonas
ou a arte de bem cavalgar
Na minha Graciosa ilha todos os anos aprecio, na Praça de Toiros do Monte de Ajuda, a arte de toureio dos irmãos Tiago e João Pamplona, filhos de João Carlos Pamplona, meu colega de escola e querido amigo, netos de Raul Pamplona – um clã familiar e uma geração de cavaleiros de primeiríssima ordem.
Em tempos que já lá vão assisti às primeiras tentas e às primeiras touradas no referido redondel, que consistia num tosco muro de pedra sobre pedra... Os cabeças de cartaz eram todos terceirenses: o cavaleiro Raul Pamplona, os praticantes Bertinho Pacheco e José Eduardo (que nunca haveriam de envergar traje de luces) e o pegador de caras, João Hermínio (mais tarde o incontornável cabo dos forcados da Tertúlia Tauromáquica Terceirense). Não poucas vezes o toiro investia contra o muro e as pedras “esborralhavam-se”… As condições de segurança eram nenhumas e os momentos hilariantes sobrepunham-se à arte taurina.
Foi neste ambiente que me tornei aficionado, aprendendo se o toiro tinha ou não nobreza e bravura, e codícia na investida. Invariavelmente os toiros eram mansos e, como todos os toiros mansos, imprevisíveis… Lembro-me de uma tourada em que o toiro fugiu da “arena”… Instalou-se o pânico, os gritos ecoaram por toda a Praça e foi um pandemónio…
Durante muitos anos, a Praça de Toiros do Monte de Ajuda haveria de servir de “escola” e de laboratório de experiências para ganadeiros, cavaleiros, toureiros e forcados da ilha Terceira. Foi esta circunstância que cimentou a afición graciosense. Entretanto as infraestruturas da Praça foram melhorando e crescendo: as pedras do redondel deram lugar ao cimento, foram construídas a trincheira e três bancadas, sendo hoje um espaço que não desmerece e que tem esta particularidade: é a única praça de toiros do mundo construída na base da cratera de um antigo vulcão…
Mas voltemos aos manos Pamplona que, sempre bem montados e por seus próprios méritos, têm já os seus nomes assegurados nos anais da arte de bem cavalgar.
Bem sei que é um lugar-comum, mas o cavalo é, de facto, um nobre animal. E, se bem adestrado, é capaz de fazer as coisas mais espantosas. Quer no toureio, quer nas corridas de obstáculos, quer na alta escola, cavalo e cavaleiro formam um só corpo, de tal modo que, numa cooperação total, a vontade do homem se transmite integralmente ao animal como se ambos estivessem biologicamente unidos…
São excecionais as qualidades do cavalo, fiel companheiro do homem na paz e na guerra, servidor obediente, com uma obediência que às vezes vai até à quase interpretação do pensamento do dono, fazendo mais do que o dono é capaz. E é assombroso o seu sentido de orientação, até porque o cavalo vê melhor e ouve melhor do que o homem.
A arte de bem cavalgar dos irmãos Pamplona está nisto: o cavaleiro tem os olhos e o cérebro em sintonia e, através das ajudas com as pernas, do adequado encosto das esporas, da pressão das rédeas no pescoço do animal e do toque do freio na justa medida, ordena os movimentos do cavalo como tal precisão como se as pernas deste realmente pertencessem ao cavaleiro. E a eficácia da sorte depende precisamente da justeza, da precisão, da oportunidade, medida por frações de segundo, com que esta expressão da vontade do cavaleiro é transmitida à montada.
Evidentemente que o mérito está por muito no cavaleiro, na sua arte exibida na arena e na arte de adestrar o cavalo. Mas também está no corcel, pois se não fossem as suas prontas reações, absolutamente certas e conformes aos comandos do cavaleiro, não haveria nada feito.
Batidas palmas para a coragem e destreza do Tiago e do João Pamplona!
Victor Rui Dores


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