OPINIÃO: VICTOR RUI DORES | Sobre o Encontro das Casas Açorianas 2026



Sobre o Encontro das Casas Açorianas 2026


   Em tempo de incerteza económica e abrandamento na área turística, nomeadamente no turismo em espaço rural (que sofreu a maior descida de dormidas desde o início do corrente ano), decorreu, em Angra do Heroísmo e Praia da Vitória, entre os dias 22 e 25 de outubro último, mais um Encontro das Casa Açorianas, desta vez sob o lema “Rumo: Como voltar ao crescimento?”

   Esta iniciativa, que assinalou o 25º aniversário de Casas Açorianas – Associação de Turismo em Espaço Rural, reuniu representantes do Governo Regional dos Açores, dos dois municípios terceirenses, bem como empresários, associados e profissionais ligados ao sector turístico que, ao longo de 4 dias, debateram sobre os desafios que atualmente se colocam ao turismo nos Açores que se quer sustentável.

   O que fazer quando a oferta cresce mais do que a procura? Como melhorar as acessibilidades aéreas e enveredar por políticas de transporte que garantam fluxos contínuos para além dos meses de verão? Como melhorar a promoção turística a nível externo, captando mercados de longa duração e alto rendimento?

   Para dar respostas a estas e muitas outras questões, estiveram em confronto, ao longo das sessões, dois tipos de discurso: o discurso oficial e bem intencionado da tutela, em nítido contraste com o discurso daqueles que estão no terreno e possuem know how: empresários, operadores, agentes de viagens, diretores comerciais e especialistas nas áreas de Transporte e Economia de Turismo.

   Especialistas que foram unânimes em afirmar que a descontinuidade geográfica dos Açores e a instabilidade climática do arquipélago não podem servir de desculpas para que não se invista mais no turismo.




   Há que entender que, em tempo de globalização, massificação e de economia de escala, somos, nestas ilhas, um destino de natureza, tranquilidade e segurança – um destino de valor acrescentado. E temos tudo para dar certo em termos de desenvolvimento turístico:

   Os Açores, a fronteira mais ocidental da Europa, são um território único no mundo, constituindo a maior zona exclusiva económica de Portugal com um milhão de Km2 de mar à nossa guarda; somos um espaço de cultura(s), ciência e biodiversidade; temos uma natureza preservada e possuímos um dos mais ricos ecossistemas do mundo; temos fauna e flora para dar e vender; e a nossa gastronomia e a nossa doçaria são de excelência.

   Temos, sobretudo, uma genuinidade, uma autenticidade, uma hospitalidade: sabemos receber e somos bons a mostrar aos outros o que somos e como somos.

   Há que crescer em valor, mas não nos podemos comparar com a Madeira que leva já dois séculos de turismo. Então já que não podemos ser maiores, temos de ser melhores. E para sermos melhores, temos de continuar a ser diferentes. E é precisamente nesta diferença que se inscrevem as Casas Açorianas que, apesar das dificuldades, continuam a manter um modelo de desenvolvimento sustentável para o turismo.

   Obviamente que muito há a fazer quando à quantidade se opta definitivamente pela qualidade: alinhar a oferta com as novas exigências dos viajantes que procuram os Açores; reforçar a cooperação entre as várias ilhas, apostando na coesão e descentralização, pois que o crescimento tem que ser distribuído de forma mais equitativa ao longo de todo o ano e por cada uma das nove ilhas; apostar na formação e qualificação das pessoas que todos os dias lidam com turistas; para mitigar a sazonalidade, atrair visitantes que valorizem o património açoriano, que fiquem mais tempo entre nós e que consumam mais, em benefício da economia local. E nunca perder de vista o milhão e meio de emigrantes (a contar com segundas e terceiras gerações) da nossa diáspora.

   A par dos trabalhos deste Encontro, nota alta para a agenda social oferecida aos seus participantes: visitas guiadas à ilha Terceira; degustação da melhor culinária local; prova de vinhos; animação musical e etnográfica; e, sobretudo, muito convívio com troca de ideias e partilha de experiências.
 
   Uma saudação muito especial é devida a Gilberto Vieira, o incontornável proprietário da “Quinta do Martelo”, alma e presidente das Casas Açorianas, pioneiro, a nível Açores, na área do turismo (já lá vão 36 anos de atividade ininterrupta), um terceirense de mão cheia que vive em constante desassossego criativo.




Victor Rui Dores

 









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