OPINIÃO: VICTOR RUI DORES | Da Escola e da Família


 

Da Escola e da Família



Eu era aluno do Liceu de Angra do Heroísmo quando aconteceu o 25 de abril de 1974. Conquistou-se a democracia e a liberdade, e eu suspirei de alívio por saber que já não tinha de ir para “a guerra do Ultramar”…

A dita revolução trouxe aos Açores três conquistas de extraordinária importância: a RTP/AÇORES, a Universidade dos Açores e a Autonomia Político-Administrativa.

A Televisão foi responsável pela difusão e fortalecimento de uma consciência coletiva arquipelágica.

A Universidade trouxe o conhecimento, a investigação e abriu caminhos para uma verdadeira identidade cultural açoriana.

A Autonomia Regional foi a solução correta para se prosseguir um caminho português nos Açores, e a forma de responder aos justos anseios de autogoverno dos açorianos. Com ela, abriram-se novas possibilidades de desenvolvimento para estas ilhas.

No que diz respeito ao ensino (hoje diz-se “processo ensino-aprendizagem”), muitas foram as mudanças verificadas. A Escola democratizou-se, universalizou-se, massificou-se. Aumentou o número de disciplinas até à obesidade curricular… E foram surgindo novos conceitos de família. As relações entre pais e filhos horizontalizaram-se, isto é, deixaram de ser tão hierárquicas, e muitos pais e encarregados de educação foram encontrando sérias dificuldades em controlar os miúdos em casa. O ditado popular bem que avisa: “Casa de pais, escola de filhos”…



Ontem como hoje, o problema da Escola sempre foi o problema da família. Mas há quem persista em ver a Escola como uma espécie de panaceia que cura todos os males do aluno, e o professor como uma espécie de mago capaz de resolver todos os problemas da sociedade. Com 43 anos que levei de docência, de uma coisa tenho eu a certeza: sem o interesse, sem o empenhamento e sem a colaboração da família a Escola pouco ou nada poderá fazer em termos educativos.

As novas tecnologias da informação e da comunicação, a par das linguagens pragmáticas do económico, do social e do político, tomaram conta das nossas vidas e vieram baralhar as coisas. Assistimos, nas redes sociais, à legitimação do insulto, ao triunfo da desinformação, das fake news e a toda uma avalanche de parvoíces.

Não questiono a importância da blogosfera, mas desconfio das suas bem-aventuranças… A propósito: um grupo de investigadores da Universidade Duke, na Carolina do Norte, concluiu, recentemente, que as escolas em que mais tinha aumentado o uso da internet foram aquelas em que os resultados escolares mais diminuíram… E não são poucos os estudiosos que asseguram este dado preocupante: os computadores estão a tornar as pessoas mais preguiçosas e menos inteligentes…

Infelizmente é este mundo virtual que informa e enforma as nossas crianças e os nossos jovens. Eles são nativos digitais, que comunicam muito, mas falam pouco. Por isso estão cada vez mais comunicativos, mas menos cultos; mais informados, mas menos eruditos. E o resultado salta à vista de todos: assistimos, no dia-a-dia, a uma gritante ausência de referências, princípios e valores, a vazios ideológicos e a muitas e desvairadas formas de niilismos culturais…

Mas a realidade é esta: nós temos o sistema de ensino que criámos. Por isso o problema da Escola continuará a ser o problema da família. E isto porque a Escola reflete forçosamente a sociedade que temos e que construímos. É esta a Escola que temos, não é outra. A sociedade que construímos é esta, não é a norueguesa, nem a canadiana, nem a australiana…

Acima de tudo tem-nos faltado pactos e compromissos educativos que nos libertem da tensão do imediato, do ato eleitoral mais próximo e permitam conferir continuidade e estabilidade às políticas estruturantes do nosso sistema de ensino.



Victor Rui Dores










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