OPINIÃO: VICTOR RUI DORES | Do contributo estrangeiro na ilha do Faial

 

Do contributo estrangeiro na ilha do Faial



Mais de 1.000 estrangeiros, de 50 diferentes nacionalidades, têm atualmente residência fixa no Faial, o que corresponde a 7% da população desta ilha. Mas não é de agora o contributo estrangeiro no Faial, o que, de resto, está bem patente no nosso cancioneiro:

“Adeus, ilha do Faial

Terra de tanto dinheiro

Terra que nada valera

Se não fora o estrangeiro.”

Este contributo estrangeiro começou logo no século XV, com a vinda de flamengos que no Faial se instalaram e que, sendo na sua maioria solteiros, consorciaram-se com açorianas e formaram as famílias Dutra, Goulart, Brum, Silveira, Terra, Rosa, Decq e Bulcão.

Para além desta influência onomástica, os flamengos tiveram papel importante na economia do Faial com larga exportação do pastel e da urzela, as famosas plantas tintureiras.

Posteriormente, devido à presença da família norte-americana Dabney no Faial entre 1804 e 1882, a Horta tornou-se a primeira localidade da Europa a possuir uma representação consular norte-americana logo após a Independência dos Estados Unidos.

Negociantes e diplomatas, as três gerações de Dabneys (John Bass, Charles Williams e Samuel Willys) trouxeram prosperidade e modernidade ao Faial com contributos em várias áreas. Foram eles que introduziram, entre nós, a fotografia, a música erudita e clássica. Na economia: serviços à navegação, comércio da laranja e do vinho do Pico, baldeação do óleo da baleia para navios baleeiros da frota americana. Na arquitetura: os edifícios da “Cedars”, da “Bagatelle”, das atuais instalações do Castelinho, da Casa de Veraneio do Porto Pim, onde hoje funcionam serviços do Ambiente e Museu dos Dabney. No desporto: o ténis, a vela e as regatas. No ambiente: foram eles que fomentaram o gosto pela jardinagem, introduzindo novas espécies de plantas e árvores, bem como novas espécies vegetais e agrícolas;




A partir de 1893 fixa-se na cidade da Horta uma impressionante comunidade estrangeira: ingleses, na sua grande maioria, mas também alemães, americanos, italianos e franceses das companhias dos Cabos Telegráficos Submarinos, que ligavam a cidade da Horta à Europa e América. Esses estrangeiros instalam-se nesta cidade até ao final do primeiro quartel do século XX. E nada no Faial viria a ser como dantes, até por via dos 62 casamentos entre cabo telegrafistas estrangeiros com mulheres faialenses

No desporto foram os ingleses do Cabo que introduziram o futebol na Horta e foi por ação deles que, em 1909, foi fundado o Faial Sport Club – o decano dos clubes desportivos dos Açores e o 5º mais antigo a nível nacional, logo a seguir, e por ordem cronológica, ao Boavista (1903), o Benfica (1904), o Sporting (1906) o “Porto (1906) e o Leixões (1907).

Foram também os ingleses que introduziram, na Horta e a nível nacional, o polo aquático, o crocket, o cricket e o jogo do bridge (este, na Sociedade Amor da Pátria).

No início do século XX a Horta é palco de voos inaugurais e experimentais. O 1º tenente americano Albert Read, a bordo de um NC4 fez a primeira viagem aérea do Atlântico Norte. A Horta é sobrevoada por zepelins, bem como por aviões da Lufthansa, Air France e Imperial Airways.

Durante as duas Grandes Guerras Mundiais instala-se na Horta uma Base naval Aliada. E, entre 1939 e 1945, cidade recebe, na sua baía, a amaragem dos clippers da Pan American, numa época áurea da hidroaviação, trazendo e levando passageiros em viagens entre os EUA e a Europa. Durante aqueles anos, os clippers amararam na baía da Horta 656 vezes, tendo transportado 9.726 passageiros. Números impressionantes numa época em que viajar em hidroaviões só estava ao alcance de poucos.

Após a Segunda Guerra Mundial, o Faial recebe os tripulantes dos rebocadores holandeses, resultando vários casamentos com mulheres faialenses

A partir dos anos 60, mas sobretudo a partir de 1986, ano da inauguração da sua Marina, a Horta transforma-se num centro de iatismo internacional. Em termos dos chamados “pleasure boats”, a Marina da Horta ocupa hoje o primeiro lugar a nível nacional, o segundo a nível europeu e o quarto a nível mundial. A Horta pode mesmo orgulhar-se de possuir a marina oceânica mais internacional do mundo, pois que toda a navegação do Atlântico Norte aqui faz escala. Esta circunstância reforça o seu cosmopolitismo.

O futuro passa por entender a ligação histórica da Horta com o mar. E, nesta matéria, há que apostar no reforço desta cidade enquanto centro do conhecimento e investigação na área das ciências do mar. Porque, bem vistas as coisas, o nosso futuro só poderá estar no mar e não apenas no turismo…

Recupero o 1ª parágrafo deste texto: 7% da população faialense é estrangeira. Gente reformada, na sua grande maioria. Mas também começam a surgir alguns casais jovens, com filhos já nascidos nesta ilha. E, bem vistas as coisas, o futuro também poderá passar por aqui.



Victor Rui Dores



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